Relíquias,coelhas e verdureiro - Cleise Campos
Existe um verdureiro que percorre diariamente um longo trajeto com seu carrinho de mão em minha cidade: impecavelmente ornado das melhores e mais vistosas verduras, hortaliças e legumes,ele anda por vários bairros,numa repetição esperada por muitos,junto com sua saudação entusiasmada,imprimindo marca registrada pelas ruas onde passa. Seu passeio diário de anos, rende um dos mais valiosos conceitos que vivenciamos na cultura,muitas vezes sem nos darmos conta: a tradição. E como distinguir a tradição ( objeto e /ou atitude a ser mantido a bem da identidade e memória ) de velharias,de entulhos a serem despachados,deletados ou mesmo engavetados??Até onde as relíquias do passado ( este estado do tempo que em muitas ocasiões não reconhece seu lugar e está sempre no presente ) pesam nas prateleiras da memória?O que deve ser cuidadosamente preservado?Quais relíquias merecem privilegiado lugar no museu de nós? E este museu ,como seria?Vivo ou daqueles que juntam poeira?
" A condição de ser é ter sido " ( F. Braudel ) Conciliar estes estados do tempo,passado e presente,é praticar o exercício do equilíbrio constante,amenizando as tensões entre um e outro tempo,até porque o passado( ainda que glorioso) não pode nunca ser resgatado e o esforço de reconstituí-lo,passa por filtros e peneiras de nosso interior,de nosso olhar,ou mesmo do coração ( as fotos,as músicas,os cheiros,os escritos, os objetos,as relações...) que queremos ou não manter no tempo presente. É este equilíbrio - exercício, que traz a possibilidade de futuro, o tom do futuro. O tempo do verbo!
Pensando e trazendo as relíquias deste 2007,com a soma dos anos anteriores,nos propomos a inaugurar um novo tempo:ainda que a mudança na folha do calendário emplaque a chegada de um ano novo, o novo se efetiva dentro de nós,com a experimentação e as vivencias das tantas relíquias que trazemos em nós ( de nós) e o novo,o desejo do novo,se consuma na teia,na rede que vai cerzindo os pontos,do passado,do presente,do futuro. E uma rede se faz com muitas mãos.
Anastácia era uma coelha linda: comia cenouras com a classe de uma dama e deitada no meio do verde, entre folhas que lhe serviam de aposentos,ficava majestosamente tranqüila. Hoje é uma relíquia querida na lembrança de uns poucos que lhe renderam homenagens e cuidados. Para outros,apenas mais uma coelha... Um 2008 culturalmente cheio de luz e energia!
* Cleise Campos
Subsecretária Municipal de Cultura de São Gonçalo / PMSG
Direção Comissão Estadual dos Gestores Públicos de Cultura RJ - COMCULTURA
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